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20/07/2015
Musashi
O inclemente caminho da espada
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Quando o escritor originário de Kanagawa, província próxima à Tóquio, Eiji Yoshikawa (1892 -1962) deu início à narrativa de Musashi, considerado o mais célebre samurai do Japão da época dos xoguns, dificilmente poderia imaginar as dimensões que sua obra atingiria. Afinal, são nada menos do que duas mil páginas de uma leitura verdadeiramente viciante. Prova disso, e o que talvez seja ainda mais impressionante do que seu tamanho, é o número de exemplares vendidos em todo o mundo desde sua primeira edição: na casa dos 120 milhões. Sem dúvida, um sucesso retumbante, tanto mais se consideradas as proporções do livro e as particularidades do mercado editorial.
Mas, se por um lado, seu tamanho pode assustar, sua leitura não poderia se fazer mais leve ou ligeira. Publicado inicialmente no formato folhetinesco, a obra se baseia em um personagem japonês real, Miyamoto Musashi, que provavelmente viveu entre 1584 e 1645. Sua história, porém, é habilmente romantizada por Yoshikawa, que não se priva de enriquecê-la com recursos narrativos dos mais variados. Impressionantes reviravoltas e atrozes coincidências, capazes de deleitar o mais exigente dos leitores, são recorrentes; há sempre uma ação pendente pela qual se anseia obstinadamente saber o desfecho - eis um dos muitos trunfos do autor.
Sabe-se que o Musashi histórico foi homem de grande disciplina e elevada força física, além de resiliente. Para sorte da posteridade, as habilidades desenvolvidas pelo samurai foram descritas em sua famosa obra sobre a arte da espada, O Livro dos Cinco Elementos, em que elabora o surpreendente estilo Nitenichi, a técnica das duas espadas, pela qual se imortalizaria.
Contudo, não é apenas sobre batalhas, guerreiros e manejo de espadas que o livro trata. Musashi é, antes, um livro de sabedoria, repleto de pensamentos elevados e de atitudes edificantes, abundante em valiosos ensinamentos tanto àqueles que almejam iluminação ao exercício vital, quanto àqueles que buscam apenas por alguma orientação. Musashi, como bom aluno, encarnará vigorosamente os valores de seu mentor, o monge Takuan, outro personagem histórico japonês bastante popular. Assim, não são raras as menções à filosofia zen-budista, expressa mais concretamente na fanática busca do personagem-título pelo domínio absoluto sobre o próprio íntimo e no sentido de unidade que nutre pela natureza ao seu redor.
Musashi é, sem dúvida, daquelas raras histórias capazes de acender a centelha de vida mesmo nos espíritos mais soturnos e empedernidos. Não à toa, recentemente, a obra passou a ser utilizada em palestras motivacionais e em cursos de liderança, figurando como leitura obrigatória entre a classe executiva.
Recomendado para todas as idades, as lições que Musashi nos empresta são prova de que, independentemente do tempo e da geografia, mudaram muito pouco as aflições do homem.

Thiago F. de Andrade

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