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20/04/2015
Muito além do bem e do mal
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1989 foi o ano de lançamento de um livrosingular, capaz deabalar não só a comunidade literária como também os estatutos de uma sociedade ainda arcaica e dogmática - às portas do século XXI, mas voltada ao medievalismo.
Os Versos Satânicos, do indiano Salman Rushdie, ensejou uma imediata e violenta resposta do aiatolá Khomeini, então autoridade islâmica e governador do Irã. Khomeini decretou no mesmo ano uma fatwa (sentença de morte) tanto contra o autor do livro quanto contra todos aqueles cientes de seu conteúdo.
A consequência ao escritor foi o exílio imposto por treze anos no mais completo anonimato.Houve, porém, efeitos mais funestos: diversos foram os atentados contra pessoas envolvidas com a obra, culminando na tentativa de homicídio sofrida pelo editor norueguês do livro William Nygaard, em 1993, e com o violento assassinato do tradutor japonês do livro HitoshiIgarashi, em 1991.
Afinal, do que se trata o livro para despertar tão encarniçado fanatismo religioso?
Sobretudo, a obra trata da perda da fé, do abandono de tudo que é obscuro na religião - mais especificamente na religião islâmica, sob cujos preceitos o autor fora criado em sua Mumbai natal.Absolutamente libertário na literatura que produz, Rushdie não se priva de nada que sua prodigiosa imaginação tem a oferecer, questionando valores arraigados, remexendo feridas abertas, embaralhando tempo e espaço, tornando o absurdo factível, provocando milagres e atrocidades.
Dentre os muitos personagens que constrói em sua alucinante narrativa, um tem papel fundamental quanto a toda essa polêmica: Mahound, nomeantigo conferido a Maomé principalmente na literatura cristã, que possui muitas vezes caráter pejorativo. Rushdie apresenta um Mahoundsuscetível às paixões,finalmente responsável por declamar aos seus fiéis os tais versos satânicos quedão título à obra, os quais seriam palavras de um negociante que busca popularizar-se como profeta. Os versos implicam a aceitação de três antigas divindades de Meca, em detrimento do Deus único que a princípio prega: "não há outro deus além de Deus". 
Esclareçamos desde já um ponto: trata-se de uma obra ficcional. Mais do que isso: trata-se de uma obra muito longe de qualquer realidade, onde homens sobrevivem a quedas abissais e flanam sobre as águas, e onde metamorfoses e seres espectrais convivem lado a lado, e onde sonhos geramnovase mais absurdas realidades.Como uma fantástica fábula, não há compromisso com a verdade; nada há no livro que possa justificar uma ofensa, a não ser como desculpa à manifestação de uma violência já latente.
Afinal, em tempos de escalada do fanatismo religioso e de intolerância, em tempos de debatesintermináveis e infrutíferos quanto à liberdade de expressão, até mesmo escrever uma modesta coluna pode causar certa suspeição...
E que a luz esteja sobre nós!

Thiago F. de Andrade

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