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12/03/2015
As selfies e a arte

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Nos últimos tempos, temos acompanhado um crescente número de exposições, capazes de arrastar verdadeiras multidões aos museus brasileiros. Em 2012, O Mundo Mágico de Escher, mostra interativa do gravurista holandês, falecido em 1972, levou mais de um milhão de pessoas aos museus pelas cidades por onde passou. Em 2013, no CCBB do Rio de Janeiro, a exposição Impressionismo: Paris e a modernidade foi uma das três mais visitadas do mundo. No ano passado, a mostra da artista plástica japonesa Yayoi Kusama, no Instituto Tomie Ohtake em São Paulo, gerou furor entre o público paulistano, causando filas gigantescas. Durante essas férias de verão, às portas do mesmo Instituto, filas de cinco horas foram registradas para a exposição de Salvador Dalí.
Até o começo do ano não havia passado ainda, pessoalmente, por experiência semelhante, quando em visita à Pinacoteca de São Paulo, durante exposição do escultor hiper-realista australiano Ron Mueck, em plena manhã de uma terça-feira de sol a pino, desfrutei de nada menos do que três horas em uma fila impensável para um povo comumente chamado de sem cultura. Ora, o que faziam então aquelas várias centenas de pessoas ordeiramente alinhadas diante dos portões? Seriam todas entusiastas das artes plásticas? Não creio... Então, como é que tais exposições, muitas delas de artistas desconhecidos do grande público, cujos nomes pouquíssimos saberiam reconhecer, atraem tamanho interesse?
Sem dúvida que são programas dos mais interessantes - em geral a preços acessíveis, quando não gratuitos, além de muito bem organizados. Porém, dificilmente tamanha comoção seria alcançada sem o advento das redes sociais. Uma mostra, portanto, com essas qualidades, rapidamente adquire notoriedade, gerando e reciclando interesse principalmente pelas infinitas fotos que logo são compartilhadas. Ademais, o próprio caráter da visitação sofreu uma drástica transformação, uma vez que o tempo de permanência em frente a cada obra aumentou significativamente. Não em decorrência de um olhar mais cauteloso e crítico, mas como produto das afamadas selfies. A popularidade conferida a cada exposição depende diretamente de sua capacidade de proporcionar aos visitantes boas dessas simpáticas autofotos, ou seja, de sua capacidade "sélfica".
Assim, será que esses milhões de visitantes de fato participam do poder transformador da arte? Ou, com seu egocentrismo visual, será que antes conformam instrumentos alienantes? Os fins justificam os meios e o que importa é que há mais gente interessada no universo artístico? Ou nada disso se mostra revelador de mudança alguma, posto que dificilmente é instigante para novas reflexões?
Com certeza, o que se pode afirmar é que melhor algum interesse do que nenhum interesse. Até porque disso depende a própria sobrevida dos realizadores já estabelecidos, como também serve de estímulo aos artífices criativos ainda por vir.
Quem sabe, com alguma sorte, não estejamos diante de um fenômeno decisivo para a popularização da arte?
Que assim seja.

Thiago F. de Andrade

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