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12/09/2021
Por baixo do pano


            Nós duas crescemos em uma família cheia de mulheres. Entre avós, tias, mães, irmãs e primas sem fim, vivemos com uma seta apontada para o futuro da “mulher livre”. Branca, classe média, com diploma universitário, achando que podia ir e vir de qualquer lugar, além de falar o que bem entendesse. Piadas machistas nunca foram toleradas por nós. A mulher de cabeça erguida, dona de seu destino, sempre pronta para lutar por si mesma e combater injustiças sexistas – essa foi a figura feminina da nossa educação.

            É claro que o caminho não é reto assim. Nem tão livre quanto imaginávamos. Somos feministas de nascença e sabemos que a luta é grande em prol de um mundo justo. Um mundo bonito, com direitos iguais para todas as pessoas, independentemente de gênero, cor, classe social ou orientação sexual. Mas nada se compara à dor de nossas irmãs afegãs.

“Ela encobre os cabelos brancos com tinta caseira, mas não consegue se livrar da expressão triste em seu rosto.” Essa é Sharifa, personagem real que ganhou um nome ficcional em “O Livreiro de Cabul”, da jornalista norueguesa Asne Seierstad. Asne passou três meses vivendo com uma família em Cabul para escrever sobre essa experiência, e retratou as contradições do Afeganistão. Sharifa é a primeira esposa do livreiro de Cabul. Ela conseguiu pintar as mechas, no entanto, não teve jeito na hora de superar o misto de vergonha e mágoa pelo segundo casamento do marido. Porque ainda que exista lei que permita, ou cultura que mantenha uma tradição, nada consegue apagar o que realmente sentimos por baixo da pele (ou da burca).  

“O Livreiro de Cabul” foi publicado em 2006, quando o movimento fundamentalista islâmico Talibã havia caído. Quando aqui no Brasil tinha sido criada, há pouco tempo, a Lei Maria da Penha contra a violência doméstica. Quando ainda não existia a lei Rose Leonel que protege mulheres, tornando crime o registro ou a divulgação não autorizada de cenas de intimidade sexual. De lá para cá, muita coisa mudou. Às vezes, mudanças são como água limpa, melhoram tudo. Às vezes, são como água de enchente, fazem a sujeira transbordar, infectando tudo em volta.

Quando nós duas lemos este livro para o clube de leitura Amigos de Palavra de Maringá, ficamos tristes, revoltadas. Sentimo-nos impotentes e privilegiadas. Mas pouco tempo depois (nem um mês), quando o Talibã tomou novamente o poder no Afeganistão, foi como se o fim do mundo chegasse bem perto de nós. Porque é mesmo como a escritora Clarissa Pinkola Estés diz, “quando uma pessoa vive de verdade, todas as outras vivem”, e quando uma mulher sofre de verdade, todas as outras – por baixo do pano – sofrem também.

 

Beijos das Irmãs de Palavra

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