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15/10/2019
Compartilhando as delícias e as agruras de ser mãe
Compartilhando as delícias e as agruras de ser mãe

Na rede e em stand-ups de muito sucesso, Mariana Bernini Cava consagra-se
como digital influencer, famosa pela franqueza e bom-humor

Foram dez anos trabalhando em uma multinacional, sendo que nos últimos
dois na posição de gerente comercial, cargo que sempre sonhou conquistar na
empresa. Estava no auge da carreira, era valorizada na companhia, ganhava
mais de R$20 mil por mês, estava casada, feliz e desejando ser mãe. Eis que a
maternidade chega. Ela, então, acredita que, após a licença maternidade,
voltará à rotina de trabalho e tudo se encaixará perfeitamente, certo? Errado!
Com a maternidade, a vida de Mariana Bernini Cava virou de ponta-cabeça,
estimulando o nascimento de uma nova carreira. Saiba mais na entrevista a
seguir.

Como foi passar o período de gravidez trabalhando em cargo de destaque
em uma grande empresa?
Sou formada em Marketing e sempre fui workaholic; amava trabalhar, chegava
supercedo e saía megatarde. A empresa supervalorizava meu esforço, tanto
que me deu outra regional para cuidar. Nesse período, eu já estava tentando
engravidar. Depois de um ano, ficando aqui e em Maringá, correndo de lá para
cá e almoçando fast food alguns dias da semana, consegui. Continuei
trabalhando freneticamente enquanto grávida e a empresa me avisava que,
dando as 36 semanas, eu deveria parar. Ficava enrolando, pois tinha medo de
parar de trabalhar. Não foi fácil. Só fui parar com 38 semanas.

Por que decidiu pedir demissão?
Clara, minha primeira filha, nasceu e eu não consegui amamentar. Com isso,
meu médico deu um remédio para ajudar na produção de leite, só que, na
verdade, era um antidepressivo. Tomava esse remédio e ficava só em casa
cuidando dela, mas estava bem infeliz. A minha equipe, do trabalho, me
mandava mensagem e eu tinha vontade de estar lá. Eu queria que a equipe
continuasse me passando tudo; pedia isso pra eles.
Após um mês do nascimento da Clara, entrei em contato com a empresa
pedindo para voltar a trabalhar, pelo menos meio período. Insisti muito e eles
deixaram. Ficava meio período na empresa e o restante em casa. Nessa fase,
continuei tomando esse medicamento; ele me deixava um pouco passada. Fui
percebendo que andava esquecendo das coisas, repetindo trabalhos que já
tinha feito, enfim, ficou tudo bagunçado e eu comecei a ficar frustrada, pois
comecei a falhar. Quando percebi, já estava atendendo todas as demandas da
empresa de novo. Ficava em casa, com a Clara nos braços e o celular na mão,
trabalhando. Em um dia, estava exatamente nessa situação quando meu
marido chegou do trabalho; ele viu aquela cena, me fez uma pergunta e, a
partir dela, tudo mudou. Ele disse: “Quantos filhos você falou que quer ter
mesmo? Você é uma péssima mãe, não cuida da sua filha, voltou a trabalhar,
em que mundo você vive?”

Ele já estava chorando ao me falar isso. Aquilo tudo mexeu muito comigo, até
porque o que eu mais queria era ser mãe. Ouvir isso foi doído. A gente sentou
pra conversar e ele falou: “Que tal você pedir demissão?” Na hora, eu falei que
ele estava louco, que eu ganhava muito bem para deixar esse cargo. E ele
disse: “Dane-se! O que vai faltar? Com o que eu ganho a gente consegue viver
bem, não precisamos de mais.”
Ele tinha razão. Embora meu salário fosse a maior renda da casa, meu marido
é concursado e não ganha mal (ele é promotor de justiça). Fora isso, a gente
tem um estilo de vida muito simples. Ele realmente estava pensando na família.
Então, fui conversar com o líder do meu líder, que é um cara super-humano, e
falei que estava pensando em pedir demissão, ele me disse: “Parabéns, é a
melhor coisa que está fazendo, a empresa sobrevive sem você, mas sua
família não. Óbvio que vamos sentir sua falta, mas você está agindo certo”.
Pedi demissão e fui me dedicar à maternidade.

Como começou essa história de digital influencer?
Sendo só mãe eu percebi que meus problemas não se resolveram; a
maternidade é muito difícil e ser mãe me desgastava muito. Nunca imaginei
que era esse desafio todo.
Eu vi, nas redes sociais, duas amigas que tinham acabado de ganhar filho;
ambas postaram uma foto dos filhos e coincidentemente colocaram a mesma
legenda que dizia “Amor Maior”. Uma delas fez um texto dizendo que era a
melhor coisa da vida. Naquele momento, eu me senti mal porque estava
vivendo um caos. Comecei a desabafar, no Instagram, que era maravilhoso ter
filho, mas que eu estava supercansada, que minha filha tinha chorado até as
quatro da madrugada, que era difícil etc. As mulheres com filhos começaram a
se identificar e a indicar meu perfil para outras mulheres.
Faz quase dois anos que comecei a dividir minha realidade nas redes sociais
de forma despretensiosa. O público começou a aumentar, as coisas
começaram a acontecer, vi essa oportunidade profissional, investi em alguns
cursos e está dando certo.

Como surgiu a ideia do seu evento “Bafafá”?
Decidi fazer um encontrinho com as mulheres que me seguiam. Marquei em
um bar; mas fiquei com medo de não ter ninguém. Então, falei que daria uma
caipirinha como cortesia com o intuito de estimulá-las a ir. Mesmo assim não
tinha tanta manifestação de que iriam. Decidi fazer uns stories para chamar a
mulherada; falei que seria muito legal, que teria a caipirinha, muita conversa,
risadas e que eu faria um stand-up. Nisso meu marido estava passando na sala
e ouviu eu falar stand-up. Na hora ele falou que eu estava louca, que não sabia
fazer isso. Porém, quando falei stand-up, a mulherada se empolgou e começou
a dizer que iria.
Foram mais de 300 pessoas e muitas não conseguiram entrar. O local não
tinha estrutura pra atender esse tanto de gente. No stand-up, contei a minha
história com o meu marido, as dificuldades e as cenas que rolam na vida do
casal com filhos. Vida real mesmo. Elas gargalhavam. A partir daí, vi a
possibilidade de fazer algo mais organizado e profissional.
Qual seu desejo profissional hoje?
Contratei uma assessoria para a organização dos Bafafás. Agora, estamos em
um espaço de eventos com capacidade para 600 pessoas. Já fiz em Curitiba e
deu supercerto. Quero levar para mais cidades, outros estados, e estruturar
para deixar as coisas maiores, mas nunca a ponto de deixar minha família em
segundo plano. Nenhum sucesso profissional compensa o fracasso do lar.

Já está ganhando dinheiro?
As pessoas acham que estou nadando em dinheiro, já que as sessões estão
lotadas e os ingressos em Londrina se esgotam em poucas horas. No entanto,
existe um custo muito grande de produção, equipe, etc. Se eu não tivesse
patrocinador seria difícil viabilizar o evento nesse formato. Já consigo ganhar
dinheiro, mas está muito distante do que ganhava no mundo corporativo.

Seu maior medo?
Que meu instinto workaholic se sobreponha. Começar a crescer
profissionalmente e me perder nisso; ter mais tempo trabalhando do que com
meus filhos.

Em que você melhorou depois de ser mãe?
Hoje, sou muito mais empática. Queria ter parto normal; quase não consegui.
Agora, entendo quem não consegue ou opta por cesariana. Eu vi uma
campanha de amamentação recentemente dizendo: “Quem ama, amamenta”.
Fiz uma campanha: “Quem ama, alimenta”. Vejo frustrações diferentes de cada
mãe e a gente precisa entender e perceber que cada uma vive uma realidade.

Por Talita Oriani

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