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13/09/2014
Julio de Oliveira Filho
Com o passado nas mãos
Trabalho de restauro de obras de arte exige esmero, perfeccionismo e paixão
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Aos 63 anos, Júlio de Oliveira Filho talvez seja um dos únicos restauradores de obras de arte em todo o norte do Paraná. Filho de um representante comercial e de uma artista plástica, já exerceu a profissão do pai e hoje trabalha no mesmo ateliê da mãe. "Nasci com essa veia de vendedor e, ao mesmo tempo, sentindo cheiro de tinta", brinca Oliveira. Em 2005, mesmo contrariado, foi aposentado. "Nessa época, eu acordava, fazia a barba e não tinha muita coisa para fazer. Foi aí que resolvi reativar esse meu lado artístico. Comecei a estudar profundamente e pedi para minha mãe, a Dona Emiliana, me ensinar tudo o que ela sabia", relembra. 
Além do perfeccionismo, Júlio explica que um restaurador competente deve estar sempre se aprimorando: "Hoje, sem sombra de dúvida, devido ao que aprendi, ao que desenvolvi, aos cursos, seminários e workshops de que participei, posso dizer que sou restaurador de obras de arte". 
Júlio de Oliveira Filho recebeu o Jornal da Gleba no ateliê que divide com a mãe, a artista plástica e restauradora Emiliana Salgado de Oliveira. Confira: 

Jornal da Gleba - Qual foi o seu primeiro restauro? 
JOF - Foi em 1971, quando um amigo me pediu para restaurar um brinquedo, um jipe de lata que ele havia ganhado do avô. Como sempre tive esse lado artístico, além de gostar desses trabalhos manuais, fiz o reparo do brinquedo. Cinco anos depois, restaurei uma pianola para minha mãe. Mas, nessa época, minha profissão era de vendedor, restaurar objetos era um hobby. 

JG- Quais as peças mais antigas que o senhor restaurou? 
JOF - Já restaurei peças de 1600, 1700, 1800 em diante. 

JG - Quanto tempo demora um restauro?
JOF - Tudo depende da pesquisa que faço sobre a peça, qual a procedência, qual o material, a técnica utilizada. Mas um quadro rasgado posso demorar cerca de dois meses para finalizar; uma porcelana posso trabalhar de uma semana até um mês. 

JG - O restaurador também é um artista? 
JOF - Sem dúvida nenhuma. Se o restaurador não tiver esse lado artístico não dá para exercer essa atividade. 

JG - O senhor ouve algum tipo de música durante o trabalho?
JOF - Escuto música clássica para o trabalho fluir melhor. Gosto muito de rock 'n' roll, mas não combina com esse trabalho (risos). 

JG - Quais são as ferramentas necessárias para um restaurador? 
JOF - Tenho ferramentas que originalmente são usadas por marceneiros, dentistas, ortopedistas, mas fui adaptando cada uma delas às minhas necessidades. Apenas 20% das minhas ferramentas foram compradas no comércio tradicional. 

JG - Pretende passar o que sabe para outra pessoa?
JOF - Sim, pretendo fazer isso no futuro. Quero encontrar um adolescente que goste dessas coisas e queira ser restaurador em Londrina. 

JG - Londrina é uma cidade que preserva bem a própria história? 
JOF - Não muito.  Tem muita coisa para ser restaurada nas casas das pessoas. Principalmente, com as famílias dos primeiros imigrantes que chegaram aqui. Muita coisa já se perdeu, mas ainda restam artigos interessantes, que deveriam ser restaurados, preservados, fotografados e repassados para as próximas gerações.  

JG - O senhor assiste a programas de TV sobre restauração? 
JOF - Sim (sorri). Gosto de assistir "Mestres da Restauração" e "Caçadores de Relíquias". Esses programas são interessantes para mostrar para as pessoas que aquilo que, às vezes, está encostado na prateleira, vale dinheiro. Muita gente entrega de graça algumas peças que, depois, são revendidas por um bom dinheiro. Pense assim, vale dinheiro, era da minha bisavó, então guarde e não venda, deixe para o seu neto ou bisneto fazer isso (risos). 

Rafael Montagnini

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