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10/08/2017
Onde estão os ciclistas que deveriam estar aqui?
Nosso bairro dispõe de duas importantes vias exclusivas para bicicletas; seu uso, contudo, tem sido ínfimo 

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Em outubro de 2016, o Jornal da Gleba noticiou a abertura da ciclofaixa construída dentro do canteiro que separa as pistas da Avenida Madre Leônia Milito. Na época, esperava-se que o número de ciclistas aumentasse naquele percurso. Aparentemente, no entanto, não foi o que aconteceu. Dez meses depois da implantação da ciclofaixa, o número de ciclistas que trafega por ali é ínfimo. 
A mesma situação se repete na ciclovia da Avenida Ayrton Senna, inaugurada meses depois da ciclofaixa. Ali, o espaço para pedestre fica entre o canteiro e o estacionamento horizontal, na pista de quem vem da Avenida Maringá em direção à Avenida Madre Leônia Milito. Esses dois trechos fazem parte da Rede Cicloviária de Londrina, que está sendo construída a passos de tartaruga. Mas por que os ciclistas que reclamam tanto, e com razão, da falta de segurança e de espaço para as "magrelas" não ocupam esses percursos? Falta de hábito ou as características urbanas e geográficas da cidade não são ideais para locomoção em ciclovias e ciclofaixas. 
Para entender o que ocorre nesses espaços, primeiro é preciso explicar as diferenças entre ciclofaixas e ciclovias. A primeira é um percurso voltado exclusivamente para os ciclistas, em que há uma separação física isolando os ciclistas dos demais veículos. A segunda é caracterizada por faixas pintadas na rua ou avenida, reservadas aos ciclistas. 
De acordo com dados da própria prefeitura, até o ano passado a cidade possuía 2 mil quilômetros de vias asfaltadas, mas apenas 33 quilômetros têm espaços destinados aos ciclistas. Na maioria dos casos, esses trechos não estão conectados entre si. Outro dado importante é que os ciclistas respondem por apenas 4% do trânsito da cidade, quase a metade do número que seria aceitável para uma cidade do porte de Londrina. Esse porcentual deveria estar entre 8% e 10%.
Para o empresário Raul Fulgêncio, que trabalha em frente à ciclovia da Avenida Ayrton Senna, o trecho do jeito que está não serve para nada. "Não sou contra os ciclistas de maneira alguma, mas nunca vi uma bicicleta passando por aqui. Até brinco com os meus corretores, se algum dia alguém vir um ciclista andando nessa ciclovia pode parar o cidadão que eu vou dar uma moto de presente para ele (risos). Tiraram o estacionamento em diagonal, no qual cabia muito mais veículos e colocaram na vertical, diminuindo o espaço das vagas, prejudicando o comércio e a vida dos motoristas", disse.  Essa é uma opinião compartilhada por outros comerciantes ouvidos pelo Jornal da Gleba. Para o empresário, as características econômicas e geográficas da cidade não são adequadas para esses espaços: "Há muita hipocrisia nesse assunto, Londrina é uma cidade quente, com muitas subidas e descidas; é impossível chegar a algum ponto da cidade sem estar completamente suado. Aqui no bairro é possível verificar que os trabalhadores da construção civil usam seus próprios carros e motos. Quantas bicicletas você já viu em frente às obras? Uma, duas, nenhuma?", indagou Fulgêncio. Para o empresário, a melhor medida é a volta do estacionamento em formato espinha de peixe, proibindo a parada de automóveis nesses locais nos fins de semana. Assim, os ciclistas que usam as bicicletas apenas para o lazer ainda teriam um espaço seguro para rodar.
Humberto Marques de Carvalho, urbanista e morador do bairro, afirma que é preciso aumentar o número de ciclovias e ciclofaixas, e que elas não terminem sem conexão como ocorre na Gleba Palhano. "Enquanto a rede cicloviária não estiver totalmente pronta, a prefeitura deveria fazer um trabalho de conscientização para que mais cidadãos passem a usar a bicicleta. Esvaziadas como estão, essas vias exclusivas podem dar a impressão de que esse importante meio de transporte mais atrapalha do que ajuda", explica. O urbanista acredita que sem a estrutura necessária jamais se criará o hábito de usar a bicicleta como meio de locomoção e de lazer. Humberto afirma que, em países desenvolvidos, muitas empresas estimulam seus funcionários a usar a bicicleta para ir e voltar do trabalho. Para isso, oferecem vestiários para troca de roupa ou mesmo para tomarem uma ducha, contribuindo assim para saúde dos trabalhadores e para a diminuição do congestionamento no trânsito. 

Rafael Montagnini

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