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10/07/2014
"Minhas lembranças de Leminski", por Domingos Pellegrini
Lembranças do amigo curitibano 
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Isso de querer / ser exatamente aquilo / que a gente é / ainda vai / nos levar além. O verso de Paulo Leminski parecia antever a história do próprio poeta: para além da morte, Leminski vive - nos livros publicados e nos poemas decorados por milhares de leitores. 
O livro "Minhas lembranças de Leminski", lançado neste ano, é uma biografia não convencional - assim como a figura que deu origem a ele. Vinte e cinco anos depois da morte do poeta, Domingos Pellegrini recebeu um convite de uma editora para escrever a biografia de "Polaco". Depois de um sonho em que os dois estão preparando uma sopa, na qual Leminski vai adicionando ingredientes inusitados, como pinhão e páprica, Domingos entende a mensagem: não escreveria uma biografia comum, mas algo além, um livro de memórias recheado de temperos variados. 
Domingos Pellegrini é tratado como Pé Vermelho durante a narrativa, apelido pelo qual era chamado por Polaco. O livro é escrito como se fosse a quatro mãos: intercalam-se trechos de memórias de Pé Vermelho com reflexões, como se escritas pelo próprio Leminski. A obra é dividida em onze capítulos: O Mestiço, O Noviço, O Anarquista... Cada um representando uma faceta do múltiplo poeta. Essa multiplicidade peculiar a Leminski é notada também em sua obra. Seus poemas trazem uma mistura de pop e de cult, grandes mensagens em poemas de fácil assimilação. Como no trocadilho que faz em "tudo / que / li / me / irrita / quando / ouço / rita / lee", o Leminski erudito versus o Leminski pop.
O texto de Pellegrini é bastante poético, rítmico, gostoso de ler. Em vários momentos, nota-se o saudosismo ao falar do amigo, o tom amoroso ao recordar as visitas à sua casa no Pilarzinho, quando bebiam e tinham longas e intensas conversas sobre política, arte militar, poesia... Pellegrini também não esconde características que observou ao longo dos anos, como a precariedade na casa em que o poeta vivia com Alice Ruiz e o vício em álcool de Leminski - responsável por sua morte precoce, aos 44 anos, por cirrose hepática. Pellegrini relata que o amigo bebia doses de vodca seguidamente, e cerveja "para hidratar". Mesmo quando os sintomas do vício começaram a aparecer, Leminski nunca buscou se tratar. E inclusive escreveu: "Fiz um trato com meu corpo. / Nunca fique doente. / Quando você quiser morrer, / eu deixo". Essas percepções incomodaram Alice Ruiz, que não autorizou a publicação do livro. Para ela, as observações do autor criavam uma imagem negativa de Leminski. Mesmo sem a autorização, o livro foi publicado na internet, e, depois, com adição de mais um capítulo, foi lançado impresso - sem cortes, trazendo os sabores e dissabores da vida que Leminski viveu.

Helene Franzon

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